Localizado no extremo Norte do Amapá, Calçoene é a caçula entre os municípios amapaenses. São apenas 64 anos desde a sua criação, mas que carrega consigo muitas histórias, riquezas e beleza exuberante, sendo povoada por pessoas simples e acolhedoras que encantam que conhece a cidade. E é nesta cidade que mora Maria Doraci Ferreira dos Santos, uma senhora de 78 anos, do sorriso largo, divertida e com lembranças ainda muito vivas. Apaixonada por Calçoene, ela criou-se e construiu sua família nesta cidade.
Maria nasceu no interior, mas conhecia a pequena e simples Vila do Firmino, nome dado a Calçoene antes de se tornar município, através de familiares que ali moravam. Na adolescência frequentava bastante a localidade.
Numa dessas visitas à Vila do Firmino, Maria Doraci acompanhou um dos momentos mais importantes: a cerimônia de inauguração de Calçoene, o 16° município criado no Amapá.
"Era uma novidade pra gente, vimos a comitiva, acompanhamos a cerimônia pelo rádio na voz de Paulo Tapajós. Era tudo muito bonito, uma novidade", relembra a idosa.
Sem ter onde estudar no interior que morava, a senhora passou a morar na cidade para cursar a 4° série do ensino fundamental na escola Estadual Lobo Damalda, uma das poucas que existia na época.
Segundo ela, as casas podiam ser até contadas pois poucas pessoas moravam na cidade. "Não tinha muita coisa, somente duas escolas, a igreja que ainda estava em construção, algumas casas e comércios pequenos que traziam mercadoria de Belém para vender à população".
Seu período foi curto na cidade, pois teve que retoma para casa de sua avó devido a uma doença. Anos se passaram e Maria casou-se com Francisco Ferreira dos Santos, que atualmente tem 84 anos.
Após receber uma proposta de emprego, o casal veio para Calçoene junto com quatro filhos em 1964. Apesar de 8 anos longe, Maria recorda que a cidade não havia mudado muito.
"A única coisa que mudou foram os prefeitos nomeados. Eles vinham de Macapá para exercer o mandato".
Maria e seu esposo saíram novamente da cidade e após quatro anos decidem voltar para criar os filhos e oferecer um ensino de qualidade. Construiu sua casa simples, de apenas um cômodo e coberta por palha, para iniciar sua vida na cidade juntamente dos seus sete filhos, na época.
A população que ali vivia sobrevivia da pesca, atividade forte na região, e da mineração no garimpo do Lourenço. Nesse período, Francisco conseguiu um emprego na Prefeitura de Calçoene e prestava serviços para uma olaria, que fabricava tijolos. O empreendimento não funciona mais atualmente.
Os anos se passaram, a cidade foi ficando mais povoada, recebendo mais empreendimento, principalmente por conta da mineração no Distrito de Lourenço, e Maria foi construindo sua vida.
Seus partos eram sempre feitos por parteiras, outra atividade forte na região naquela época. As profissionais eram responsáveis por fazer o parto, além de cuidar da mãe e da criança. Mesmo com todos os empecilhos, Maria cumpriu com o que veio fazer na cidade: dar estudo para as crianças.
"Eu vim para Calçoene com a esperança de oferecer uma vida melhor para os meus filhos, para que eles tivessem oportunidade de estudar e ter uma profissão. Graças a Deus, 9 possuem ensino superior e são empregados. Não tenho dúvida que valeu a pena ficar aqui", enfatiza.
Maria Doraci tem uma paixão inexplicável pelo seu município. "Eu acho a minha cidade tudo de bom, tem água em abundância, tem muito peixe, muita fartura. Se perguntarem se eu quero sair daqui eu digo que não. Eu gosto daqui e se Deus permitir vou morrer aqui".
A idosa acompanhou o processo da cidade e lamenta que muitas autoridades políticas não cuidaram dela como merece.
"Ainda falta muita coisa para a cidade, como faculdade e agências bancárias. Eu oro para que o nosso prefeito possa melhorar Calçoene, pois ela é abençoada, é a terra de um povo acolhedor e que merece ser cuidado".